Minha avó e o sino da igreja que nunca ouvi

Reflexões sobre memória, esquecimento e o que permanece quando até os nomes se apagam

É raro minha avó me visitar materna. Além de morarmos em cidades diferentes — e bem distantes uma da outra —, ela é uma senhora octogenária que não gosta muito de sair de casa. Assim, o motivo para ela visitar a mim e aos meus pais, incluindo passar alguns dias na casa deles, é motivo para a maior das alegrias. Digo isso porque sou eu quem normalmente a visita e quem ela faz questão de mimar — mesmo que meu rosto esteja coberto por uma barba vasta. Quando é ela quem viaja até nós, sinto que é a minha vez de retribuir: de dar a atenção que uma avó merece de seu neto.

Recentemente, quando minha vó estava na minha cidade, fizemos todo um roteiro de passeios e lugares para levá-la. Nem tudo saiu como planejado. Esquecemos do detalhe da idade dela. Mesmo sendo uma senhora com grande disposição — que caminha até o mercado, amassa pão, limpa o jardim, arruma a casa — a energia dela costuma se esgotar logo depois do almoço.

Em um desses dias, queríamos levá-la ao museu. Mas, após o almoço, ela preferiu tirar o longo cochilo dela. Mais tarde, com algum esforço e uma ou outra reclamação, saímos — mas não para o museu. Ela queria outro tipo de passeio. Pensei um pouco para onde poderíamos ir e recalculei a rota.

Minha avó tem no sobrenome e na fala um pouco da cultura alemã. Não que ela fale alemão com fluência — algumas poucas coisas —, mas entende muito bem. Aliás, entre os mais diversos motivos, foi devido a ela que um dia me meti a aprender (e ainda estou tentando aprender) o idioma alemão. Assim, resolvi levá-la a uma igreja luterana — talvez uma das mais antigas igrejas da região onde resido.

Fomos lá meus pais, minha avó e eu. Não havia nenhuma novidade naquele local para mim. Afinal, já havia ido ali umas tantas vezes — sempre que algum amigo ou conhecido de outra cidade vem me visitar, levo-o ao local para fazer turismo. De todo modo, fui apresentando para minha avó o lugar com todos os seus detalhes:

— Essa igreja aqui foi fundada em 1897 e o sino dela veio diretamente da Alemanha — falei para minha avó, querendo dar uma pequena aula de história local.

— E é bonito o som? — perguntou ela.

— Som?

— Do sino. É bonito?

Fiquei, por um instante, em silêncio.

— Confesso que eu nunca ouvi.

Acabei ficando reflexivo com isso. Por mais que já tivesse vindo aquele local inúmeras vezes, jamais tinha ouvido o som daquele sino. De todo modo, me mantive atento a minha função de guia do passeio e sugeri darmos uma olhada no cemitério logo ao lado.

O motivo para darmos uma olhada no cemitério é pelo fato de, tal como a igreja, ele ser também centenário. Muito dos primeiros imigrantes que aportaram na região a mais de uma centena de anos atrás, se encontram enterrados ali. Torna-se interessante então observar os sobrenomes das primeiras famílias de alemães que habitaram a cidade, de onde vieram, quando nasceram e quanto tempo viveram. Além de que muitas das lápides, mesmo desgastadas pelo tempo, guardam inúmera beleza.

Ficamos lá olhando algum tempo os túmulos. Minha avó lendo, ou tentando ler, as inscrições em alemão que havia neles. Meus pais fazendo alguns comentários sobre os ornamentos. Já eu, olhando para a torre da igreja e ainda pensando no som do sino que nunca ouvi. O silêncio traz paz, mas também pode gerar curiosidade e, ainda, um pouco de inquietação. Era o meu caso.

Depois, voltei meus olhos aos túmulos. Estavam limpos, bem-cuidados, organizados. Por um momento, imaginei que fossem os familiares que zelavam por eles. Mas logo percebi: muitas daquelas pessoas faleceram há mais de cem anos. Seus filhos, netos, bisnetos talvez nem saibam que eles estão ali. O cuidado, então, vem da comunidade. Há algo de bonito nisso: um cuidado com o que não se lembra mais, mas ainda se reconhece como parte da nossa história.

Foi quando me dei conta de que o destino de todos nós não é apenas o túmulo. É o esquecimento. Os nomes ali gravados permanecerão visíveis por algum tempo. Mas, e a história de vida de cada um dele? E os gestos, os afetos, os segredos, os medos e as alegrias de quem ali repousa? Tudo isso se perdeu. Está enterrado com eles. A memória de cada pessoa ali, um dia vívida, agora silencia sob a terra. E, ainda assim, algo resiste.

Talvez esse seja o sentido da memória: não se trata de preservar tudo. Mesmo porque isso é impossível. Mas de não permitir que o esquecimento seja absoluto. E naquele dia, ao lado da minha avó, diante do sino silencioso e dos nomes apagados, eu soube que, mesmo sem ouvir o som, algo estava sendo tocado. Que mesmo no silêncio, algo podia ser ouvido e percebido.

Depois daquele passeio, que me gerou reflexões improváveis sobre a vida, o tempo e o silêncio, fomos a uma cafeteria — minha avó, meus pais e eu. Se, como aqueles que dormem no cemitério, também caminhamos em direção ao esquecimento, que ao menos, até lá, não nos falte conversa, um pedaço de bolo e um café quente.

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