Dias Perfeitos convida o espectador a desacelerar, a observar e, sobretudo, a reconsiderar onde exatamente colocamos a medida de uma vida bem vivida
A era das redes sociais transformou o mundo em um lugar dominado pelo ruído, pela constante performance e necessidade de exposição. Mas, talvez nada disso seja necessário. E o filme Dias Perfeitos, de algum modo, toca nessa questão. Nessa obra cinematográfica o diretor Wim Wenders constrói um retrato delicado e profundamente humano de um homem comum, Hirayama, em meio ao cotidiano de Tóquio.
Wenders, que é um cineasta alemão, foca seu olhar na cultura japonesa, mas sem recorrer ao exotismo ou à explicação didática. Ao contrário, ele observa com respeito um modo de vida baseado na atenção aos gestos simples. O protagonista é zelador de banheiros públicos. E ele os limpa com extremo cuidado, rega suas plantas diariamente, almoça sempre no mesmo parque, fotografa copas de árvores e termina o dia lendo livros comprados em sebos. Não há pressa, não há excesso, não há espetáculo. Em vez de buscar sentido em grandes narrativas de sucesso ou ascensão social, o personagem encontra valor na repetição e no cuidado.
Ao mesmo tempo, o filme cria um curioso diálogo cultural. Hirayama escuta músicas ocidentais, como The House of the Rising Sun, lê William Faulkner e cultiva hábitos que remetem a uma formação intelectual discreta. Quando a dona do restaurante que ele frequenta o chama de “intelectual”, Hirayama sorri e nega. Não por falsa modéstia, mas porque não parece se definir por rótulos. A cultura para ele é uma companhia silenciosa.
A chegada da sobrinha funciona como uma pequena rachadura nesse cotidiano perfeitamente organizado. Ela traz barulho e perguntas. E, com isso, revela que o silêncio de Hirayama não é apenas contemplação, mas também defesa. Ele não fala muito, não porque não tenha o que dizer, mas porque talvez falar implique reviver aquilo que prefere manter em suspensão.

Esse contraste fica ainda mais evidente quando surge sua irmã, uma mulher rica, que se choca ao descobrir que o irmão vive de limpar banheiros. Para ela, há ali um fracasso social. Mas, para ele, há uma vida possível. Aos poucos, percebe-se que há um passado não resolvido, tensões familiares e possíveis rupturas que ajudam a explicar seu afastamento do mundo convencional.
De algum modo, ao ver Hirayama, é difícil não lembrar de O Mito de Sísifo, de Albert Camus. Na obra, o filósofo discute o conflito entre a busca humana por sentido e a indiferença do mundo diante dos nossos anseios. Para ilustrar essa condição absurda, Camus recorre à figura de Sísifo, condenado pelos deuses a rolar eternamente uma pedra montanha acima. Ainda assim, o filósofo propõe que devemos imaginá-lo feliz, justamente porque, ao aceitar sua tarefa, ele encontra nela uma forma de dignidade. Tal como Hirayama, que opta por uma vida simples e repetitiva e, a partir dela, extrai equilíbrio, paz e uma felicidade discreta, porém consistente.
Hirayama não discursa, não reivindica, não se explica. Ele simplesmente vive segundo um código próprio, sustentado por pequenas práticas diárias que lhe garantem equilíbrio. É um anti-herói contemporâneo, cuja grandeza está justamente na recusa de se tornar protagonista de qualquer espetáculo. O resultado é um filme minimalista, mas profundamente sensível, que convida o espectador a desacelerar, a observar e, sobretudo, a reconsiderar onde exatamente colocamos a medida de uma vida bem vivida. Trata-se de uma dignidade silenciosa do viver cotidiano.
Dias Perfeitos (2024)
Gênero: Drama
Direção: Wim Wenders
Roteiro: Takuma Takasaki, Wim Wenders
Elenco: Kōji Yakusho, Tokio Emoto, Arisa Nakano, Aoi Yamada, Yumi Asō, Sayuri Ishikawa, Tomokazu Miura
Duração: 123 minutos.







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