Resenha | O Crepúsculo do Mundo, de Allan Massie

Na obra O Crepúsculo do Mundo somos convidados a refletir sobre o que resta de uma civilização quando suas estruturas desmoronam

Para além dos livros didáticos, existe uma forma encantadora de aprender história: através dos romances históricos. Embora essas obras tomem liberdades poéticas com os fatos, elas nos conduzem por entre os bastidores da História com humanidade e emoção. É exatamente isso que faz O Crepúsculo do Mundo, romance do escritor escocês Allan Massie. O livro nos transporta para os últimos e derradeiros momentos do Império Romano do Ocidente, mesclando eventos históricos reais com personagens fictícios que.

O protagonista da história é Marcos, um cristão devoto e servidor leal de Roma. Ao testemunhar a lenta desintegração da civilização romana, ele embarca em uma jornada pessoal para tentar salvá-la — ou ao menos preservar o que ainda resta de sua glória e valores. Sua trajetória é construída com camadas de fé e profunda angústia diante do colapso do mundo ao qual pertence.

O que torna o livro particularmente instigante é a forma como Allan Massie lança um olhar periférico — quase marginal — sobre os grandes acontecimentos que marcaram o fim do império. O autor evita o caminho tradicional dos grandes generais e imperadores e opta por mostrar a História pelos olhos de alguém que assiste à ruína de dentro, sem o poder de evitá-la. Ou seja, conhecemos o fim de Roma através de Marcos. Ainda assim, a trama se entrelaça com figuras históricas notáveis, como Alarico, o rei visigodo que invadiu e saqueou Roma em 410 d.C. Esse cruzamento entre ficção e realidade é um dos pontos altos da narrativa.

Por outro lado, é preciso reconhecer que a obra sofre com um certo didatismo. Em diversos momentos, a narrativa é interrompida para dar lugar a longas digressões sobre mitologia, filosofia, religião e história. Embora esses trechos sejam ricos em conteúdo e reflitam o esforço de Massie em contextualizar o passado, eles tendem a desacelerar o ritmo da leitura e, por vezes, tornam a experiência um pouco maçante.

O Crepúsculo do Mundo remete a outras obras do gênero, como A Última Legião, de Valerio Massimo Manfredi. Neste romance, também ambientado nos momentos finais do Império Romano do Ocidente, Manfredi narra a queda de Rômulo Augusto, o último imperador, e imagina uma série de desdobramentos ficcionais sobre seu destino. No entanto, enquanto Manfredi aposta mais na aventura e ação, Massie oferece um retrato introspectivo e melancólico do fim desse império

A trajetória de Marcos se inicia com o saque de Roma por Alarico, evento que ele presencia, e se conclui de maneira surpreendente: com ele sendo alçado ao posto de co-imperador do Império Romano do Oriente, enfrentando ninguém menos que Átila, o Huno, antes de ser deposto. É uma trajetória de altos e baixos, marcada por conflitos internos, dilemas morais e embates com as forças históricas que escapam ao controle de qualquer indivíduo.

Como dito no início, mesmo com as liberdades poéticas de Allan Massie, O Crepúsculo do Mundo é um daqueles romances históricos que valem a pena ser lidos. Afinal, instiga a curiosidade, desperta o desejo de saber mais e, sobretudo, provoca uma pergunta fundamental: onde termina a História e começa a ficção?

Título: O Crepúsculo do Mundo: um Romance da Idade Média
Autora: Allan Massie
Publicação: 2002
Editora: Ediouro
Páginas: 298

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