Entrevista | Ser poeta no Brasil é ser um exilado, com Douglas Zunino

Em entrevista, Douglas Zunino fala sobre vida, política e o papel do poeta em um mundo cada vez mais distante da experiência humana

Douglas Zunino é um daqueles escritores que parecem confundir vida e literatura. Poeta, agitador cultural e autor de Confissões de um Poeta Marginal, ele construiu sua trajetória longe dos circuitos tradicionais, apostando na palavra como forma de expressão. Nesta entrevista, Zunino fala sobre poesia, política, fanzines, engajamento e o lugar do artista em um mundo cada vez mais mediado pela virtualidade. Uma conversa direta, por vezes incômoda, mas profundamente honesta sobre o que significa escolher viver pela arte.

Seu livro Confissões de um Poeta Marginal mistura memórias pessoais e poesia. Em que momento da sua vida você percebeu que a poesia seria um caminho definitivo?

Na realidade, eu nunca percebi. As coisas foram acontecendo. Na minha adolescência, eu tentei me encontrar, tentei ser músico, mas, dada a inoperância física, não consegui. Tentei ser pintor, mas também não deu certo. Então a poesia me atraiu pela sua característica de síntese. Mas eu ainda não tinha me autodefinido poeta, eu apenas sabia que queria ser um artista.

No título do livro você se define como um “poeta marginal”. O que significa ser um poeta marginal hoje? Trata-se de uma postura estética, social ou existencial?

Bem, a poesia marginal perdeu o seu sentido histórico. Não me considero mais um poeta marginal. O que me fez ser adepto da poesia marginal era o seu lado coloquial e cotidiano. Mas agora a situação histórica é outra, não estamos mais numa ditadura. A poesia marginal foi uma reação ao convencionalismo e ao conservadorismo. Hoje, o convencionalismo é diferente, assim como o conservadorismo.

Ao longo da sua trajetória, você levou poesia para ruas, praças e encontros culturais. Qual é a importância de tirar a poesia dos espaços tradicionais e levá-la diretamente às pessoas?

Com o advento da internet, esse tipo de iniciativa foi engolfado. Vivemos hoje em um mundo virtual, não presencial. E isso é um problema.

Por que seria um problema?

Tem o lado positivo, pois poderíamos usar essa virtualidade inclusive na poesia, certo? Mas também as pessoas não se encontram mais, e isso é muito negativo. É o que eu acho. Vivemos em um mundo protegido, de casulo, de grupos. As pessoas tendem a não divergir nem discutir mais. Isso deu gás para essas ideologias conservadoras.

Autografando exemplares durante o lançamento de sua autobiografia em 2015.

Escrever sobre a própria vida pode ser um exercício difícil. O que foi mais desafiador ao transformar sua trajetória em narrativa literária?

Não achei que foi difícil. Depois que me assumi poeta, minha vida se tornou pública, então foi fácil para mim.

Seu livro sugere que sua própria vida se tornou matéria-prima para a poesia. Você acredita que todo poeta acaba transformando a própria existência em literatura?

Tem que ser assim, sempre. A vida tem que ser poesia para um poeta.Você está radicado em Blumenau e participou de diversos projetos culturais. Como você vê a cena literária e artística da cidade hoje?Vejo como um enigma. Talvez tenha muitas boas surpresas. Vamos ver.

Sua poesia parece nascer muito do cotidiano, das ruas e das experiências vividas. De onde surgem seus poemas: da observação do mundo ou de inquietações interiores?

Tudo isso junto.

Mas, lendo suas produções, é possível observar uma maior atenção a temas históricos e sociais. Você faz da sua poesia um exercício de análise da sociedade atual e seus problemas?

Sim. Vivemos num contexto histórico. Isso é inescapável. Todas as questões mundiais nos afetam, de uma forma ou de outra. A grande questão hoje, a grande questão preocupante hoje, além do ambiente, é a questão do desarmamento nuclear. As pessoas precisam se engajar nisso. A humanidade pode ser erradicada. Não é o planeta que precisa de nós, mas nós que precisamos do planeta. O planeta pode muito bem continuar sem a humanidade.

Na produção de um fanzine.

Interessante, pois na sua autobiografia você conta que, na juventude, foi engajado politicamente, durante o período da redemocratização. Você ainda é engajado politicamente? Ou, indo além, faz da sua poesia uma manifestação política?

Cada vez mais. Do jeito que a política está, temos que nos engajar. É um absurdo uma nação ter mais de cinco mil bombas atômicas. Cada vez mais o mundo está se tornando multipolar, com lideranças regionais. Um mundo de império único acabou. Temos agora que desarmá-los.

Você já vendeu poemas diretamente nas ruas e em encontros culturais. Como é esse contato direto com o leitor? Isso muda a forma como você pensa a poesia?

Não, não muda. Esse contato às vezes pode ser frustrante. Muitas pessoas que compram não leem, muito menos comentam. Ser um artista no Brasil é ser um exilado.

Ao longo das décadas, um dos seus principais trabalhos foi a divulgação da poesia através de fanzines. Como ocorre esse processo de produção e disseminação desse tipo de conteúdo?

Eu elaboro os fanzines com base na minha experiência. A disseminação ocorre através de um círculo de apoiadores e de simpatizantes. Pois o fanzine permite ser mais ousado na linguagem. Além disso, você administra o seu próprio trabalho. Essa é a grande vantagem da produção do fanzine.

Durante uma viagem ao Rio de Janeiro.

E você está trabalhando atualmente em algum projeto?

Vou fazer uma série de poemas visuais, que são poemas tecnicamente concretos. Porque poesia visual é um nome genérico. Não abdico da palavra, pois poesia feita só com signos já é outra coisa.

Quais poetas ou escritores tiveram maior influência na sua formação literária?

Lindolf Bell, pela sua paixão humanitária — apesar de que ele anda meio esquecido. Carlos Drummond, que foi o poeta que solidificou o modernismo no Brasil, na minha opinião. Baudelaire, pela rebeldia. Rimbaud, pelo delírio. E Mallarmé, pela abstração. E, é claro, a tríade da poesia concreta: Haroldo e Augusto de Campos e Décio Pignatari.

Para quem está começando a escrever poesia hoje, qual conselho você daria? Existe algum caminho ou cada poeta precisa descobrir o seu próprio?

Eu diria que você é alguém bem raro. E as pessoas raras vão lidar com vários problemas. Boa sorte.

Gostou da entrevista? Leia também a resenha sobre a autobiografia de Douglas Zunino, Confissões de um Poeta Marginal

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