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A Morte de Baleia

A Morte de Baleia

E se a caatinga falasse por ela?

Quem leu Vidas Secas, de Graciliano Ramos, sabe que o capítulo dedicado à morte da cachorra Baleia é uma das páginas mais devastadoras da nossa literatura. Na obra original, Graciliano já faz algo extraordinário: ele humaniza o animal, dando-nos um vislumbre de seus sonhos com preás gordos enquanto o mundo real desmorona ao seu redor.

Mas e se déssemos um passo adiante? E se rompêssemos totalmente a barreira do narrador em terceira pessoa para mergulhar, sem intermediários, na consciência de Baleia?

O texto a seguir é um exercício de fanfiction e releitura literária. É uma tentativa de responder a esse “e se?”, reescrevendo a despedida mais dolorosa do sertão sob a ótica única, leal e resiliente da própria Baleia. Prepare o coração e acompanhe este mergulho nos pensamentos finais da personagem de quatro patas mais importante da nossa cultura.

Os últimos pensamentos de Baleia

Baleia sentia uma quentura estranha espalhar-se pelo corpo. A perna não lhe obedecia mais, e o chão áspero parecia puxá-la para baixo. Ainda tentou avançar alguns passos em direção aos juazeiros. Gostava daquele canto. A terra era macia e fresca, boa para descansar depois das corridas pelo terreiro. Mas as forças faltavam.

Deitou-se entre as pedras e ergueu a cabeça. As cabras andavam por perto. Os chocalhos soavam ao longe, misturados ao rumor do vento. Baleia escutava tudo, embora os sons chegassem abafados, como se viessem de muito longe.

Estranhou não ver os meninos. Àquela hora já deviam estar na esteira, debaixo do caritó. Talvez estivessem dormindo. Talvez sonhassem. Pensou neles e moveu a ponta do rabo, mas o gesto ficou pela metade.

Uma angústia apertou-lhe o coração. Quem tomaria conta das cabras? Quem perceberia a aproximação de uma suçuarana escondida entre as moitas? Era seu dever vigiar. Sempre fora.

Fechou os olhos por um instante e tornou a abri-los. A escuridão aumentava devagar. Lembrou-se das longas caminhadas pela caatinga, dos dias de fome, da poeira levantada pelos passos de Fabiano, das vezes em que as crianças a abraçavam e rolavam com ela pelo chão. Eram lembranças confusas, embaralhadas como folhas secas levadas pelo vento.

Pensou também em Fabiano. Não compreendia o desastre que acontecera. Apenas recordava sua voz, suas passadas largas e os caminhos percorridos juntos. Durante muito tempo caminhara atrás dele. Durante muito tempo pertencera àquela família.

A sede queimava-lhe a garganta. Baleia respirou fundo e deixou que os olhos se fechassem novamente.

Então os cheiros mudaram.

Já não havia poeira, nem espinhos, nem cercas.

O mundo parecia maior.

Correu.

As quatro patas tocavam a terra sem esforço. À sua volta saltavam preás gordos e ligeiros. Os meninos corriam atrás dela, rindo. Sinha Vitória chamava da porta. Fabiano vinha adiante, sem pressa, como se não existissem mais secas nem retiradas.

Baleia correu mais depressa.

O campo parecia não ter fim.

E, pela primeira vez em muito tempo, não sentia fome, medo ou cansaço.

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