Entrevista | A poesia, o teatro e a câmera, com Wylliam Pessatti

Em entrevista ao blog Razão Cult, Wylliam Pessatti reflete sobre criação, identidade e futuro

Poucos artistas transitam com tanta naturalidade por diferentes linguagens quanto Wylliam Pessatti. Poeta sensível, ator expressivo, roteirista versátil e agora também modelo, ele construiu uma trajetória marcada pela busca constante de expressão e pela dedicação a múltiplas formas de arte.

Nesta entrevista exclusiva para o Razão Cult, Wylliam fala sobre sua relação com a literatura catarinense, as origens de sua escrita, os desafios da publicação independente e o prazer em declamar versos. Compartilha ainda suas experiências com o teatro, o audiovisual e a recente incursão no universo da moda — mostrando que sua arte vai além das páginas escritas.

Sua trajetória na literatura começou em 2015. O que despertou em você esse desejo de escrever? Houve alguma inspiração específica?
Sempre notei facilidade em desenvolver textos variados e complexos e, além da facilidade, comecei a desfrutar de grande prazer em contemplar minhas próprias obras quando prontas, pois geravam em mim um sentimento muito diferente de qualquer outro e, aos poucos, foi se tornando conveniente e concreto desenvolver mais obras, construindo, aos poucos, um portfólio muito prazeroso. A principal inspiração me foi apresentada ainda na escola, no seu incentivo para que crianças participassem de concursos de declamação dos poemas do grande autor Lindolf Bell. Foi ali que descobri um grande afeto pela poesia e pela vontade de criar textos parecidos, que fossem adaptados a mim. Seguindo inicialmente como base o trabalho de Bell, passei a vê-lo como uma inspiração fundamental para construir minha carreira e descobrir o formato de textos que tanto aprecio. Por isso, hoje o considero tão fundamental para iniciar e me desenvolver na literatura, já que, para sempre, a poesia será o formato de texto que mais me agrada e no qual quero infinitamente me desenvolver.

O projeto Balaio de Gato foi uma iniciativa independente que resultou na publicação de uma antologia. Como foi essa experiência e qual a importância desse projeto para você?
A experiência em ter participado do projeto Balaio de Gato foi inigualável, não só por ter sido o primeiro projeto a ser composto por grandes obras — entre elas, as minhas também —, mas porque, observando biografias de minhas referências na arte, percebi que o pontapé inicial pode ser o mais desafiador e nem sempre o melhor. Mas, no meu caso, com o Balaio de Gato, tive um início grandioso, concreto e muito promissor, com vários profissionais talentosos que talvez não saibam o quanto agregaram à minha evolução e ao meu conhecimento na literatura. De certa forma, o Balaio de Gato foi um grande projeto que iniciou minha carreira literária em grande estilo. Desfrutei de cada companhia e de cada palavra de conhecimento que envolveu a evolução deste projeto — e todas levo comigo até os dias atuais.

Com outros escritores, entre eles Johan Henryque e José Henrique.

Seu romance As 5 Provas na Moldura do Espelho marca um momento importante da sua carreira como escritor independente. O que te motivou a escrever um romance policial e quais foram os desafios desse processo?
Sempre desenvolvi em silêncio variadas histórias em minha mente, e nunca faltou vontade de publicá-las, até para sair da zona de conforto que eram os textos poéticos. Depois de concluir o projeto Balaio de Gato, obtive clareza e conhecimento necessários para iniciar a jornada do meu primeiro romance. Para a surpresa de muitos, romances policiais não são os textos que mais me apetecem, mas, entre as histórias que tinha em mente — mesmo que desenvolvidas de forma superficial —, a ideia de um detetive que escondia provas em seu corpo era promissora e interessante, com vários personagens com potencial gigante de background. Naquele momento, era a história ideal para desenvolver, então embarquei nessa aventura. Já tinha certo conhecimento com a publicação de minha primeira obra, mas ainda não havia feito isso sozinho. Então, para concretizar essa obra, foi exigido muito trabalho, empenho e pesquisa: desde a estrutura da história, ao me informar sobre o funcionamento de departamentos de investigação — sendo esse o meio onde a história se passa —, passando pela construção e arco de personagens, até os desafios técnicos, como o contato com pessoas para desenvolver uma arte para a capa da obra, ou para a publicação em si com uma editora — contatos que nunca havia feito antes. Outro desafio a ressaltar foi sair da zona de conforto, lidar com a falta de tempo e ser movido pelo desejo de ter, mais uma vez, a sensação de dever cumprido.

A propósito, quais autores, livros, filmes lhe inspiraram a escrever uma obra desse gênero?
Várias grandes mentes me inspiraram. Na literatura, não posso deixar de ressaltar Lindolf Bell, sendo meu primeiro ídolo e guia para os poemas que tanto amo. Também Johan Henryque, que, além de grande autor, hoje posso chamar de amigo pessoal e é responsável por me proporcionar muito ensinamento e clareza em momentos em que necessitava, além de me inspirar com suas obras — afinal, ele contempla a poesia assim como eu. Além destes, nos mais variados meios, preciso ressaltar Tolkien e sua excepcional arte em desenvolver detalhes. Cineastas como Quentin Tarantino e James Cameron também têm muito a ensinar, pois desempenham várias funções além da direção em seus filmes e são pilares de grandes produções cinematográficas — sucessos de crítica e bilheteria, que são o que todo artista busca.

Você também participou da antologia Terra, Nossa Casa Comum. Como foi essa experiência em comparação com suas outras publicações? A poesia tem um significado diferente para você em relação à prosa?
Participar da antologia Terra, Nossa Casa Comum, publicado pela Prosacult, foi importante para perceber minha própria evolução em relação à produção de poemas e para compor minha carreira literária com mais um grande projeto recheado de grandes obras, movidas por grandes artistas. Sempre escrevi textos de ambos os formatos, mas meu apreço pela poesia vai muito além de uma simples preferência ou da possibilidade de expor meus sentimentos em um papel através da caneta. O formato poético de escrever, sendo mais pausado e dividido entre versos, foi importante para minha dicção, ajudando-me a conter e regular minha fala e a combater alguns problemas, como a gagueira — combate esse que era muito importante para meu futuro na declamação dos próprios poemas e na atuação, que é outro grande amor que tenho.

Ainda falando de escrita, como é sua rotina? Você mantém alguma disciplina para escrever? Prefere ser movido pela inspiração? Ou tem alguma outra estratégia?
Atualmente, sigo ativo na produção de diferentes textos, pois minha rotina e os meios culturais nos quais estou envolvido exigem minha escrita para a movimentação e criação de conteúdo. Exemplo disso são os roteiros para gravação de esquetes e episódios dos programas do canal de conteúdo audiovisual no qual atuo. Outro meio que exige minhas criações é o teatro, onde, além de atuar, já desenvolvi roteiros para peças apresentadas. Mas, claro, entre textos e criações, não poderiam faltar os fundamentais que me fizeram apaixonar pela literatura. Por isso, semanalmente — ou, no máximo, quinzenalmente — desenvolvo poemas novos ou frases poéticas, tanto para me manter ativo nesse estilo quanto para ampliar o portfólio para um novo livro, além do prazer em contemplar meus próprios poemas.

Durante a Feira do Livro de Lontras (SC).

Além da literatura, você está envolvido no mundo audiovisual com o Canal Meia Nov@, onde atua e produz conteúdos sobre cinema e cultura pop. Como surgiu a ideia do canal e qual é o seu papel na equipe?
O canal Meia Nov@ surgiu com o intuito de satisfazer o desejo de algumas pessoas em comentar, produzir e levar nossa paixão por cultura pop e cinema — principalmente — ao público. Hoje, o canal segue em crescimento exponencial, com a produção de episódios, podcasts, esquetes, cobertura de eventos, entre outras atividades. Atualmente, desenvolvo um papel fundamental no canal, pois, além de ser um dos criadores, sigo como sócio da empresa. Entre as funções que desempenho estão o desenvolvimento de roteiros para as diversas produções, a apresentação e atuação em esquetes e no programa principal, além de ser um dos investidores.

Sua relação com o teatro também é bastante expressiva, desde sua participação em A Tempestade até peças como Auto da Compadecida e Mamma Mia. Como o teatro influenciou sua escrita e sua forma de se expressar artisticamente?
O ingresso no teatro foi fundamental para aprimorar valências que eu já tinha ambição de desenvolver, como minha dicção e o combate à gagueira, além da desenvoltura em público, expressão e aprimoramento do meu conhecimento na área artística e nas produções textuais. É importante salientar que iniciar uma carreira como ator foi a realização do meu mais antigo sonho de criança, pois, antes de qualquer ambição, lembro-me de, ainda pequeno, pensar na atuação como o lugar onde eu queria estar — mesmo antes da literatura.

Em 2024, você expandiu ainda mais sua atuação no meio artístico, iniciando carreira como modelo. Como foi essa transição e de que forma essa nova experiência se conecta com suas outras atividades?
Foi uma transição natural, basicamente uma questão de aproveitar uma oportunidade que apareceu. Vivendo no meio artístico — principalmente o da atuação —, há muito contato com palcos, passarelas e pessoas atuantes nessas áreas, sendo possível observar figuras já inseridas nesse meio e absorver seu conhecimento e referências. Aos poucos, pude me projetar ali, até que, de fato, iniciei mais uma etapa — agora nessa nova área. Iniciar uma carreira como modelo traz vantagens, como melhorar e mostrar outro lado da desenvoltura em público, proporcionar uma autoimagem ainda mais completa como artista e abrir mais portas para trabalhar com minhas outras habilidades nesse ramo.

Após uma apresentação da peça O Auto da Compadecida.

Com um portfólio tão diversificado, indo da literatura ao teatro e à produção audiovisual, como você concilia tantas áreas diferentes? Existe alguma que você considera sua prioridade ou todas têm o mesmo peso na sua trajetória?
Cada uma das áreas artísticas nas quais atuo tem seu momento de atenção para ser desenvolvida. Sempre vi a importância de organizar a minha rotina e, com boa organização, muita coisa é possível. Hoje, tenho dias estabelecidos para gravação, para escrever, para aulas e para participação em eventos, sempre respeitando cada momento e o foco necessário para que cada área mantenha uma caminhada saudável de desenvolvimento. Não existe uma área que possua mais ou menos prioridade — a única prioridade é manter minha mente tranquila e sem sobrecarga. Escrever alguns poemas ajuda nisso, e talvez essa seja uma resposta que exemplifique muito bem uma certa preferência.

Seu trabalho também tem um forte compromisso com a formação de novos escritores. Como você enxerga a cena literária catarinense atualmente e o que acredita que pode ser feito para incentivar novos autores?
Vejo um meio literário catarinense com diversos talentos brutos que necessitam de lapidação. Considero de extrema importância instigar sempre o desejo de leitura e escrita nas pessoas ao nosso redor — ainda mais quando há tanto potencial por aqui. Apenas explorando esse potencial ao máximo é que as pessoas conseguem buscar o conhecimento necessário para desenvolverem a si mesmas e à sociedade. Não é à toa que países que hoje são exemplos em desenvolvimento e qualidade de vida são justamente aqueles que, há mais de trinta anos, investiram pesado em conhecimento — como é o caso dos Tigres Asiáticos. E não existe melhor caminho para o conhecimento do que a literatura. Acredito que Santa Catarina tem esse potencial, por isso é importante que, desde jovens, as pessoas sejam incentivadas a ingressar e explorar a escrita. Quanto mais escritores houver, mais leitores existirão — e, consequentemente, mais mentes preparadas.

Jogo rápido: três autores de cabeceira.
J. R. R. Tolkien, Lindolf Bell e Johan Henryque.

Agora três livros de literatura que você considera essenciais.
Bíblia, O Senhor dos Anéis e A Menina que Roubava Livros.

Por fim, seus três filmes favoritos.
Titanic, Interestelar e O Senhor dos Anéis: O Retorno do rei.

Para finalizar, quais são seus próximos projetos? Algum livro, peça ou novo projeto audiovisual em andamento?
A ambição de oferecer novos projetos ao mundo nunca deve parar. E tenho vários em mente! Primeiramente, quero publicar meu primeiro livro de poemas, sigo ampliando meu portfólio para uma obra poética inigualável. Vale à pena ressaltar também a ideia de longo prazo da gravação de um filme longa-metragem produzido pelo canal Meia Nov@. É um projeto ambicioso, mas nenhum grande artista chegou ao topo com projetos rasos.

One response to “Entrevista | A poesia, o teatro e a câmera, com Wylliam Pessatti”

  1. Avatar de Wylliam Pessatti
    Wylliam Pessatti

    Grande satisfação em poder com compartilhar um pouco das vivências e experiências com os leitores desse blog que tanto acompanho e prezo! Muito gratificante poder participar desta entrevista e levar um pouco do que é ser artista para o mundo, e mostre que é possível mergulhar fundo na área que amamos!

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