Uma despedida ao ídolo que me inspirou a transformar o grito do rock em palavras
Esses tempos Ozzy Osbourne faleceu. E isso me causou um tremendo impacto. Praticamente não acreditei quando vi isso nas redes sociais. Poucas semanas antes ele havia feito seu show de despedida. Quando vi a notícia, eu estava no intervalo do trabalho, na minha pausa para um cafezinho. Tanto que comentei sobre o assunto com todas as pessoas que encontrei no caminho entre minha mesa e a cozinha.
A questão da morte dele, particularmente para mim, é muito mais profunda do que somente a perda de um grande músico. Ozzy era um referencial. Confesso que não me recordo ao certo desde qual idade a figura dele e do Black Sabbath me acompanhavam. Lembro que na adolescência, quando aos 15 anos ganhei meu violão, entre as músicas que aprendi, estavam lá as do Black Sabbath. Aos 18 anos, com minha guitarra, um dos primeiros riffs e solos que executei foi o de Paranoid.
O fato é que Ozzy e o Black Sabbath me levaram a querer aprender um instrumento musical, comprar revistas sobre música, assistir a shows, documentários, conhecer outras bandas tão incríveis quanto eles. Aliás, esse é o ponto: figuras como Ozzy foram formativas em minha vida e me influenciaram muito. Não que eu tenha, tal como ele, arrancado a cabeça de um morcego. Mas com certeza a música dele ajudou a determinar muito de minha vida.
O puro fato de eu escrever se deve a isso. Se nunca me desenvolvi tão bem quanto Tony Iommi na guitarra a ponto de me tornar uma lenda do heavy metal, encontrei em outra forma de arte, a escrita, uma forma de expressão tão poderosa quanto a música. E isso se deve, em partes, a caras como Ozzy Osbourne.
Porque o que Ozzy, o Sabbath e tantas outas bandas e artistas… o que todos eles me ensinaram é que a arte é um grito. Às vezes de dor, às vezes de prazer, às vezes de indignação. Mas sempre um grito. Sempre uma tentativa — desesperada ou serena — de existir de maneira intensa.
E a escrita nasce desse impulso. Ainda que eu não tenha talento para solos virtuosos, encontrei nos contos, nas crônicas e nos diálogos de personagens uma guitarra invisível para extravasar o que sinto. Textos são riffs literários. São versos sujos, notas agudas de inquietação. São ecos daquelas músicas que se ouve com o fone no último volume.
A perda de Ozzy me doeu porque, de certo modo, ele era um pedaço da minha juventude que ainda estava vivo. Um elo entre aquele adolescente inquieto e o cara que escreve agora. E quando um ídolo morre, a gente percebe que o tempo está passando. Que o que nos moldou também está partindo. Mas é nesse ponto que a arte mostra sua grandeza: Ozzy não morreu. Ele segue reverberando nos alto-falantes da memória, nos solos que nunca esqueci, nas letras que desafiaram a moral e os bons costumes, nas noites em que precisei de um som alto para espantar o silêncio.
A arte, no fim das contas, é isso: aquilo que continua ecoando mesmo depois que o artista cala. E se hoje escrevo, é porque ouvi esses ecos e eles foram inspiradores. Despertaram em mim o desejo pela vida e por tudo que ela pode proporcionar de melhor e mais incrível. Valeu, Ozzy. Enquanto houver música, você nunca será esquecido.






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