No futebol, entre um passe errado e um gol improvável, revelam-se nossas virtudes e nossas fraquezas
Esses tempos tive a chance de viver algo único: assistir a uma partida de futebol em um estádio. Faz tempo que venho acompanhando com atenção as diversas partidas dos meus clubes do coração, o Palmeiras e o JEC, ou Joinville Esporte Clube. Mas, mesmo prometendo que iria ao estádio assistir a um ou outro jogo, vinha falhando nessa promessa. Até que acabei assistindo a Palmeiras e Fluminense no final do ano passado, lá no Allianz Park. E, no início deste ano, vi o primeiro jogo da temporada do JEC contra o Figueirense, na Arena Joinville.
Tenho que confessar que vivi tudo aquilo que um bom amante do futebol acaba vivendo de bom em um estádio: a aflição diante do time adversário atacando; a expectativa de um gol em um chute do atacante do meu time; a emoção ao entoar o hino do clube ou cânticos puxados pela torcida organizada; uma pipoca salgada no intervalo do jogo. Mas, principalmente, mesmo diante da derrota do JEC frente ao Figueira, tive a oportunidade de gritar gol do Joinville não uma, mas duas vezes — e viver, junto com a torcida, uma completa catarse.
Diante do momento do gol, em que vi e vivi a mais plena euforia e satisfação, veio-me à mente Nelson Rodrigues e uma de suas pérolas, em que dizia que “no futebol, o pior cego é o que só vê a bola”. E ele tinha, ou melhor, continua tendo total razão. Nelson, que era um torcedor fanático pelo Fluminense, escreveu muito sobre o assunto em diversas crônicas. O principal é que ele enxergava o esporte para além de vinte e dois homens correndo atrás de uma bola: via o drama humano escancarado em uma partida e buscava revelar nuances que, para outros, passariam despercebidas.
Aliás, o futebol não era somente sedutor para escritores como Nelson. O filósofo franco-argelino Albert Camus era outro que também tinha no futebol a mais alta consideração. Na juventude, ele havia sido goleiro de um time universitário, apenas trocando o campo pela arquibancada devido ao fato de ser tuberculoso. De todo modo, a experiência dentro das quatro linhas deixou suas marcas, tanto que chegou a declarar que “o que eu mais sei sobre a moral e as obrigações do ser humano eu devo ao futebol”.
E não é curioso perceber como dois homens tão diferentes — Nelson Rodrigues e Albert Camus — encontraram no futebol uma espécie de chave para compreender o ser humano? Um, cronista apaixonado, dramático, exagerado. Outro, filósofo do absurdo, do silêncio e da lucidez. E ambos concordavam em algo essencial: o futebol não é apenas um jogo. É um espelho.
Ali, entre um passe errado e um gol improvável, revelam-se nossas virtudes e nossas fraquezas. A esperança que insiste mesmo quando tudo parece perdido. A raiva diante da injustiça. A fé cega no improvável. A alegria quase infantil quando a rede balança. No estádio, ninguém finge. A máscara social cai. Somos só nós, gritando, xingando, rezando, abraçando desconhecidos.
Talvez seja isso que tanto encantou Nelson e Camus. O futebol como metáfora da vida. Um espaço onde aprendemos, sem perceber, sobre derrota, persistência, cooperação, injustiça, sorte e acaso. Onde entendemos que nem sempre o melhor vence. Que esforço não garante vitória. Que, às vezes, o herói falha. E que, mesmo assim, seguimos torcendo.
Hoje, quando lembro dessas duas experiências — no Allianz e na Arena Joinville —, percebo que elas não foram apenas “jogos assistidos”. Foram pequenas epifanias. Pequenas lições sobre humanidade, coletividade e emoção.
E talvez Nelson estivesse certo desde sempre. Quem vai ao estádio e só vê a bola perde o mais importante: as histórias, os rostos, os gritos, os silêncios, os abraços, os suspiros, os dramas invisíveis que se desenrolam nas arquibancadas. O futebol acontece dentro das quatro linhas. Mas a vida, essa mesma que nos atravessa e nos transforma, acontece muito além delas.







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