Michelle Moran, em seu romance histórico Nefertiti, nos faz sentir o calor do deserto e o peso da coroa do Egito
Há livros com uma capacidade de imersão tão surpreendente que um leitor acaba sendo transportado para dentro das páginas deles. Nefertiti, de Michelle Moran, é uma dessas obras ímpares. Nesse livro somos transportados para mais de três mil anos atrás, em meio ao calor do Egito Antigo, às disputas de poder político no interior dos palácios e a uma revolução religiosa sem precedentes.
Na obra acompanhamos a jovem Nefertiti, uma das mulheres mais lindas do Egito e que, com sua beleza, foi capaz de encantar a corte egípcia e os olhos do futuro faraó do Egito. Não somente isso: em um contexto em que o rei podia ter mais de uma esposa, era Nefertite quem ocupava desde cedo o posto de Grande Esposa Real. E tudo isso, essa história, acompanhamos não através dos olhos da própria Nefertiti, mas sim de sua irmã mais jovem, Mutnodjmet, ou simplesmente Mutine.
De todo modo, o foco da história está, muito mais do que em Nefertite, em seu marido. Inicialmente Amenófis IV, ao se tornar rei do Egito rebatizou-se como Akhenaton. E este nome tem um detalhe curioso. Durante grande parte do Egito Antigo, houve um panteão de deuses dos mais variados, sendo o mais cultuado deles Amon. Ou pelo menos foi assim até a chegada de Amenófis IV ao trono egípcio.

Amenófis IV, ou Akhenaton, mudou seu nome justamente para reverenciar Aton, ou para ser “aquele que louva Aton”. O motivo era tanto religioso quanto político. Com o culto a Amon durante séculos, os sacerdotes dessa divindade acumularam imensa riqueza e influência econômica, o que lhes conferia poder político considerável.
Akhenaton quis inverter isso. Ele não criou simplesmente “uma nova religião de Estado”. Ele promoveu algo próximo de um “monoteísmo” ou monolatria. Com isso, centralizou o culto estatal exclusivamente em Aton, esvaziando o poder dos antigos sacerdotes e construindo um novo Egito. Ou melhor, pelo menos uma nova capital chamada Amarna.
Com isso, acompanhamos, através da narrativa em primeira pessoa de Mutine, a ascensão de Nefertite ao trono egípcio, além das articulações da rainha na manutenção e ampliação de seu poder e do poder de sua família na corte. A obsessão dela e de seu marido por Aton é tamanha que torna-se evidente que para eles não havia nenhum outro interesse senão ele — a política externa, por exemplo, e as relações diplomáticas parecem ter sido relegadas a segundo plano.
No início comentei que Nefertiti é uma obra única pela capacidade de transportar o leitor para dentro da história. Não que a estrutura narrativa que Michelle Moran aplica ao desenvolvimento da história seja inédita. Mas também não há dúvidas de que, muito mais do que um espectador, ao se ler a obra, sente-se como que caminhando pelos grandes palácios reais e bisbilhotando a vida dos poderosos atrás de alguma coluna.

Um detalhe que chama a atenção é o cuidado da autora ao revelar hábitos e costumes da corte egípcia. Um deles, o passatempo constante que era o jogo de tabuleiro Senet. Além do hábito da utilização de ervas em preparados como chá para os mais variados problemas, desde disenteria até evitar gravidezes indesejadas. Isso demonstra um cuidado de Michelle Moran na reconstituição do dia a dia dos antigos moradores do Egito.
Sem dúvida nenhuma, o conturbado reinado de Akhenaton foi um dos momentos mais fascinantes da história do Antigo Egito. As transformações que ele buscou causar nas estruturas do Egito provocaram forte instabilidade política e religiosa. E Nefertite foi, sem dúvidas, uma das personagens femininas do Antigo Egito mais fascinantes — era astuta, articuladora e, segundo a obra de Michelle Moran, alcançou o título de faraó, embora isso ainda seja debatido. Assim como fez Hatshepsut décadas antes e do mesmo modo como Cleópatra um milênio mais tarde.
É claro, a obra é um romance histórico e deve ser compreendida como tal. De modo que, durante a leitura, não nos esquecemos de que, assim como ali há história, também existe ficção. Mas é um bom ponto de partida para se conhecer um pouco da cultura do Antigo Egito. Nefertiti, de Michelle Moran, é aquele tipo de livro que nos faz sentir o calor do deserto e o peso da coroa.
Título: Nefertiti
Autora: Michelle Moran
Publicação: 2009
Editora: Suma Letras
Páginas: 416







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