Resenha | O Túmulo de Alexandre — O Enigma

Valerio Massimo Manfredi resgata os feitos de Alexandre, o Grande, enquanto desvenda as pistas sobre o paradeiro de seu túmulo perdido

Há personagens históricos que são fascinantes. Em vida cometeram atos únicos e que deixaram aqueles a sua volta impressionados — tão impressionados que fizeram o nome e os feitos desse personagem ecoarem em vida e, muito mais, depois da morte. Criando com isso uma aura mística em torno daquela figura. Curiosamente os mais fascinantes são aqueles que morreram há muito tempo, particularmente na Antiguidade. Sócrates, Júlio César e Jesus são alguns deles. Mas há um outro que desperta um interesse sem igual: Alexandre, da Macedônia.

Sim, esse Alexandre aqui citado é aquele que recebeu a alcunha de “o Grande”. Não é por acaso, os feitos dele foram notáveis. Herdando de seu pai, Felipe II, um reino bem estruturado e com um exército bem treinado, Alexandre saiu pelo mundo conquistando-o militarmente. Partindo da região da atual Grécia, libertou diversas cidades gregas do domínio do Império Persa, passou pelo Oriente Médio, Egito e, por fim, derrotou o grande rei Dario III da Pérsia em uma batalha sem precedentes: Gaugamela — os macedônios de Alexandre eram cerca de 40 mil frente a talvez 200 mil persas, segundo estimativas mais arrojadas.

Tudo isso é narrado pelo historiador e romancista Valerio Massimo Manfredi em seu ensaio O Túmulo de Alexandre — O Enigma. Nesta obra, um breve texto de pouco mais de 150 páginas, Valerio, um perito no assunto, retoma e contextualiza a história de Alexandre. O autor rememora seus feitos militares, o fato de ter tido Aristóteles como tutor, o ambiente da corte macedônica. Ou melhor, o autor apenas apresenta um recorte sobre a vida do soberano macedônico — afinal, a extensão e detalhamento da vida dele é tamanha, que não cabe em um curto ensaio.

Exemplar do livro O Túmulo de Alexandre, Editora Rocco.

De todo modo, tudo isso é oferecido como forma de nos sentirmos instigados diante do mistério de onde se encontra o túmulo de Alexandre. Afinal, a vida dele foi notável e registrada em detalhes pelos mais variados autores — tanto aqueles que tiveram oportunidade de vê-lo em vida, quanto o interesse que se seguiu por ele após sua morte. E aí entra a questão, se um homem como Alexandre teve a vida registrada com tantas minúcias, como pode não haver registros ou certeza de onde se encontra o túmulo com seu corpo?

Não há um consenso sobre a morte dele. Hipóteses incluem malária, febre tifoide ou intoxicação. Há relatos de que seu corpo não se decompôs por vários dias, o que aumentou a crença de que era divino. Mas o fato é que morreu em seu palácio na Babilônia cercado por seus generais. E que suas últimas palavras, quando questionado para quem deveria ser deixado seu império, foram: ao mais forte. Isso com certeza causou uma cisma entre os homens a sua volta, afinal era uma resposta um tanto quanto vaga. Àquela altura o futuro herdeiro de Alexandre ainda não havia nascido, de modo que não havia ninguém de seu sangue para herdar o trono que se tornava vago — Roxana, esposa de Alexandre, estava grávida de Alexandre IV no momento da morte dele.

De toda forma, tendo morrido e não deixando um herdeiro legítimo, seu império acabou por se esfacelar entre seus generais. Cada um tomou para si uma região dos territórios que Alexandre teve tanto trabalho para conquistar. O curioso disso é que um de seus generais, Ptolomeu acabou por sequestrar o corpo do soberano macedônico, levando-o para o Egito. Foi uma forma dele, de Ptolomeu, se consagrar como sucessor de Alexandre — que fora elevado a Faraó naquelas terras.

O ator Colin Farrell como Alexandre no filme homônimo de 2004.

Assim, o último paradeiro do corpo de Alexandre foi a cidade que ele mesmo fundou, Alexandria. Lá o corpo repousou por séculos, sendo motivo de visita de outros soberanos, como Cleópatra, Júlio César e, até mesmo, o fundador do Império Romano: Otaviano Augusto. Deste último, conta-se que ao visitar a tumba de Alexandre, olhou demoradamente para a múmia do soberano, colocando um coroa de ouro sobre ela e espalhando pétalas de flores ao redor. Ao perguntarem se Augusto deseja ver o sepulcro de outros soberanos egípcios, respondeu que estava ali para ver um rei e não apenas uns mortos. E o mais surpreendente disso? Quando esse encontro ocorreu, Alexandre já havia morrido a pelo menos três séculos.

Depois disso, não há mais muita clareza sobre o que ocorreu com o corpo do rei macedônico. Sabe-se que o imperador romano Septímo Severo fechou a tumba de Alexandre para visitação pública. Mas o que houve depois, se o corpo foi movido de lugar, para onde, ninguém tem certeza. Tanto que Valerio Massimo Manfredi se debruça sobre essa questão mostrando, no máximo, pistas dos últimos dois mil anos sobre o paradeiro do corpo dele. E demonstra o fascínio arqueológico que existe na busca por Alexandre.

Esse fascínio existe porque Alexandre, sendo tão jovem, conquistou todo o mundo conhecido. E se o fez é porque era alguém de um carisma sem precedentes. Somente assim conseguiria mover dezenas de milhares de homens aos confins do mundo em suas conquistas. Aliás, conquistas nunca refreadas, porque em batalha ele nunca perdeu. Talvez seja por isso o fascínio acerca desse soberano, sobre como teria sido o mundo se ele tivesse a chance de governar por mais tempo, estruturar seu império e deixar um herdeiro legítimo, bem-educado e com capacidade de governar tantas terras.

Contudo, à história não cabem os ‘e se’. Ela se constrói sobre os fatos consumados — conquistas grandiosas e um túmulo ainda velado pelo mistério.

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