No livro Uma Negra Comédia, Fábio Gonçales nos conduz por um Brasil que pulsa nas vielas, nos campinhos e nos pagodes de fim de semana
Uma Negra Comédia, de Fábio Gonçalves, é aquele tipo de livro que você começa sem grandes pretensões e, quando percebe, já devorou cinquenta páginas sem sentir o tempo passar. O ritmo é acelerado, com frases curtas, diretas e capítulos que parecem pequenos socos narrativos. É literatura de impacto rápido, daquelas que você lê no ônibus, na fila do mercado ou no intervalo do trabalho. Funciona em qualquer circunstância.
O que mais chama atenção, logo de cara, é a brasilidade escancarada da narrativa. Está tudo ali. Tem o futebol — com o protagonista e o irmão torcedores fanáticos do Corinthians. Tem o irmão pagodeiro que conquista meio mundo. Tem também a mãe evangélica trabalhadora. E tem as referências as novelas. O protagonista, ao narrar uma desventura amorosa, estabelece um paralelo entre a vida dele e os personagens Cirilo e Maria Joaquina de Carrossel. Uma novela entre as tanta que é um produto tipicamente e enraizado na cultura popular brasileira.
Aliás, devo confessar: as descrições sobre pagode me pegaram de um jeito que até parei a leitura para ouvir algumas músicas. E olha que eu nem sou fã do gênero.
Ao longo da leitura, acompanhamos uma espécie de romance de formação, ainda que todo trabalhado na tragicomédia. O protagonista (que permanece sem nome durante boa parte da história) revisita sua vida desde o berço até a fase adulta, sempre narrando sob a sombra do humor ácido e, ao mesmo tempo, de um drama real. É a vida como ela é: dura, injusta, porém atravessada por lampejos de graça, leveza e humanidade.

E os personagens são muito bem desenvolvidos. Celsão, o antagonista, é aquele sujeito grosso, agressivo e tem os filhos envolvidos com o crime. Nandinho, o irmão músico, é o boêmio sonhador que vive entre festas, mulheres e a frustração permanente de não conquistar a fama como artista. A mãe, dona Marta, é trabalhadora, evangélica, piedosa e limpa a casa dos ricos — uma figura tão comum nas periferias quanto invisibilizada pela sociedade.
E há o protagonista, que, por permanecer sem nome durante tanto tempo, parece representar essa massa de brasileiros anônimos. Dessa gente que leva a vida atrás de um balcão de supermercado, dentro de ônibus lotados, em jornadas estafantes que engolem sonhos e energia. Só bem depois, quase como uma revelação tardia, descobrimos que seu nome é Juninho.
É difícil não perceber que essa demora em nomear o protagonista talvez seja intencional. Quase um comentário sobre a invisibilidade cotidiana de tantos brasileiros periféricos. Ou não — talvez Fábio Gonçalves só tenha achado divertido esconder esse detalhe. Mas, de todo modo, funciona muito bem.
O livro se passa dentro da favela, e isso não é apenas pano de fundo: é parte constitutiva da narrativa. A favela é praticamente um personagem. E tudo é visto pelo olhar periférico, atento e crítico do protagonista. Vemos o paraíso — as pequenas alegrias, como o futebol no campinho — e o inferno — o crime organizado que organiza, à força, a vida dos moradores. A comunidade, com suas dores, festas e contradições, pulsa em cada página.

Apesar da forte brasilidade, Uma Negra Comédia traz também um toque inesperado de erudição. Em certo momento, ao falar de seu inevitável confronto com Celsão, Juninho compara a si mesmo a Teseu diante do Minotauro ou Perseu enfrentando Medusa. São referências que surgem de forma natural, funcionando como metáforas perfeitas para a brutalidade da vida e os monstros simbólicos que todos enfrentamos.
Mas um dos pontos mais importante para a trama é a entrada em cena do Mestre Caruso, instrutor de karatê que representa uma espécie de bússola moral e afetiva para Juninho. Ele é o empurrão necessário para que o protagonista veja um futuro possível, algo que vá além do cotidiano esmagador da comunidade. Como o próprio Juninho diz: Foi o Mestre Caruso que me tirou da clausura. Explicou-me, a seu modo, que somos bicho e espírito, e que é preciso o espírito domar o bicho.
Sem entregar detalhes, digo apenas que o final me incomodou, no bom sentido. Simpatizei tanto com Juninho que a conclusão me pegou de surpresa e me deixou meio atravessado. Mesmo achando justo, não consegui ler o epílogo. Fechei o livro no impulso e guardei na estante, precisando digerir. Mas isso, para mim, é prova de que a história funciona. É uma narrativa que provoca, mexe, gera desconforto — e isso é ótimo. Aliás, o desfecho me deixou ainda mais curioso para ler outros livros do autor, especialmente Um Milagre em Paraisópolis.
Uma Negra Comédia é um livro rápido, inteligente e extremamente humano. Em pouco mais de 200 páginas, Fábio Gonçalves consegue mostrar um Brasil que poucos querem enxergar, mas que existe com força pulsante. É tragicômico, é brasileiro, é doloroso e engraçado na mesma medida. E, principalmente, é honesto. Devorei o livro em cinco viagens de ônibus — entre ir e voltar do trabalho. Valeu cada minuto, nem senti o tempo passar.
Título: Uma negra comédia
Autora: Fábio Gonçalves
Publicação: 2025
Editora: Danubio
Páginas: 228







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