A conturbada história de amor entre um dos maiores escritores do século XX e uma das maiores correspondentes de guerra do século XX
Imagine um dia quente. Você está com sede. Olha em volta e encontra um bar. Resolve entrar para beber alguma coisa — quem sabe uma cerveja gelada, ou algo mais forte. Ao atravessar a porta, percebe que não se trata de um bar qualquer, mas de um belo boteco. Um daqueles lugares onde homens bebem não exatamente para ficarem bêbados, mas para se manterem assim.
Quando você observa melhor o ambiente, vê um sujeito impossível de ignorar: sujo, com um jeito canastrão, gabando-se de uma pescaria em alto-mar. Seu nome é Ernest Hemingway.
Talvez não tenha sido exatamente assim o primeiro encontro entre Hemingway e a correspondente de guerra Martha Gellhorn. Mas é essa a atmosfera que o filme Hemingway & Gellhorn, dirigido por Philip Kaufman, acaba sugerindo: o grande escritor norte-americano em seu bar favorito, o Sloppy Joe’s, e uma jovem jornalista ainda em início de carreira se conhecendo quase por acaso.
Hemingway é interpretado pelo ator britânico Clive Owen (que, diga-se de passagem, sempre imaginei que daria um ótimo James Bond), enquanto Martha ganha vida na interpretação de Nicole Kidman, que consegue transmitir força e intensidade a uma mulher muito à frente de seu tempo — especialmente no que diz respeito à independência feminina, às próprias opiniões e ao papel da mulher na sociedade americana dos anos 1930.
Ao mesmo tempo em que acompanha a relação do casal, o filme se entrelaça com alguns dos grandes acontecimentos históricos do século XX. Se o primeiro encontro acontece num ambiente leve e boêmio, logo os dois voltam a se encontrar em um contexto radicalmente diferente: a Guerra Civil Espanhola.
É curioso como o filme destaca a participação de ambos nesses eventos históricos. Sabe-se que Hemingway atuou na Primeira Guerra Mundial como membro da Cruz Vermelha no front italiano e que, ao longo da vida, buscou constantemente estar próximo de conflitos armados — inclusive durante a Segunda Guerra, quando armou seu próprio barco para patrulhar a costa de Cuba, além de ter convivido com figuras históricas como Fidel Castro.

Ainda assim, a narrativa se detém especialmente na Guerra Civil Espanhola, onde Hemingway e Gellhorn acompanham de perto o cotidiano das trincheiras, dividindo o tempo entre o trabalho jornalístico e os bares de Madri. É também nesse trecho que aparecem participações curiosas, como a do ator brasileiro Rodrigo Santoro e até mesmo de Lars Ulrich, baterista do Metallica (banda que sou super fã!), em uma ponta inesperada.
Em meio a esse contexto turbulento, há também as complexidades afetivas: Hemingway ainda era casado quando se envolve com Gellhorn, o que adiciona camadas de tensão à relação. Mais tarde, os dois constroem uma vida juntos em Cuba — com direito à famosa paixão de Hemingway por gatos —, mas o temperamento explosivo do escritor e a independência radical de Martha começam a colocar fissuras no relacionamento.
Gellhorn não aceitava ser apenas “a esposa de um grande escritor”. Seu desejo era continuar sendo correspondente de guerra, acompanhando conflitos pelo mundo, da Europa à Ásia, sempre em busca da experiência direta dos acontecimentos. Essa postura, inevitavelmente, cria um abismo entre os dois.
O filme é longo e, em alguns momentos, um pouco arrastado. Os conflitos constantes e o destempero de Hemingway podem cansar o espectador. Ainda assim, há uma escolha narrativa interessante: a história é conduzida a partir da voz de Martha, como se ela estivesse concedendo uma entrevista — o que contrasta com o fato de que, em vida, ela se recusava a falar publicamente sobre Hemingway, justamente para não ser reduzida a uma nota de rodapé em sua biografia.
Hemingway & Gellhorn é um daqueles filmes biográficos que tentam dar conta de vidas intensas demais para caberem plenamente em duas horas de projeção. Vale a pena assistir, especialmente pelas atuações sólidas de Clive Owen e Nicole Kidman. Mas, para realmente compreender a dimensão desses dois personagens, o cinema é apenas um ponto de partida. É nos livros — tanto na obra literária quanto nas biografias — que suas trajetórias revelam toda a complexidade, contradição e grandeza.







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