Certas histórias nunca terminam — só esperam ser lembradas
Quando escrevo, gosto de causar impacto. Ou pelo menos era isso que pensava quando publiquei meu livro Breves Cenas da Vida. A obra reúne sete contos com personagens corriqueiros. Cada um deles levando uma vida calma e rotineira. Ou pelo menos tentando. Até que se veem em turbilhões de eventos que os transtornam e os obrigam a tomar decisões singulares. Dramático? Era o objetivo.
Afinal, a vida tem dessas coisas. Ou melhor, em algum momento a existência nos coloca diante de situações limites. Essas são aqueles momentos desafiadores, intensos, extremos. E o desafio pode ser tamanho que a resiliência é testada, assim como a capacidade de enfrentamento daquilo adverso a vontade individual.
Quis tratar desse tema, dessas situações — do arrependimento, da dúvida, da traição — em contos ficcionais. Eu sabia que iria aguçar o sentido daqueles que lessem para as próprias situações limites que os rondam. Apenas não esperava que daquelas histórias uma delas fosse a que mais chamasse a atenção dos leitores, ou melhor, que eles mais se identificassem.
Quando li algumas das resenhas sobre meu livro, além de comentários, ou mensagens sobre a obra, o conto Escolhas ganhou destaque. A história é a seguinte: Adalberto é um rapaz de 17 anos que se apaixona por uma colega de classe, a Maria Isabel, que acaba por rejeitá-lo na primeira investida dele. Os anos se passam, ele vai para a universidade, conhece outras garotas, se forma, conhece uma que ganha seu coração, se casa, tem filhos, consolida sua vida e conquista tranquilidade.
Nada demais, não é mesmo? Todavia, nessa história, Maria Isabel ressurge na vida de Adalberto e algo dentro dele que não está bem resolvido é incitado pela visão dela. Eles se reaproximam, passam a conversar, trocar mensagens, se encontrar, até que se envolvem amorosamente. E o desfecho da história… Bem, leia meu conto para saber o resultado disso tudo.
O fato é que essa história, e não qualquer uma das outras seis, foi a que mais provocou aquele comentário “esse foi o meu conto favorito!”. E alguns até revelaram que passaram ou por situações próximas a do Adalberto ou conheciam algum amigo ou amiga que tinham passado por algo semelhante.
Curiosamente, confesso que a história do meu personagem surgiu a partir de um episódio real, vivido por um amigo. Assim como Adalberto, ele estava noivo — e muito bem noivo, diga-se de passagem — quando uma antiga namoradinha dos tempos de escola reapareceu, de forma casual, puxando conversa sobre o passado. Bastaram algumas mensagens, algumas lembranças compartilhadas, para que ele se visse tomado por dúvidas e sentimentos confusos. Aquilo me chamou a atenção. Claro, a história de meu amigo não passou de um tropeço emocional, ele logo retomou o foco e seguiu com sua vida. Mas a situação, por si só, me pareceu um excelente ponto de partida para criar Adalberto — e uma boa história de ficção.
Desde então, comecei a perceber como isso é mais comum do que eu imaginava. Gente casada, com filhos, com vidas estáveis e aparentemente resolvidas, mas que ainda guarda, lá no fundo, um sentimento inacabado por alguém do passado. Não se trata exatamente de amor — às vezes é só uma pontinha de idealização, uma memória que nunca foi devidamente encerrada. Como se uma porta tivesse ficado entreaberta, e bastasse um reencontro, uma foto antiga, uma mensagem fora de hora, para que tudo voltasse à tona.
E há algo de profundamente humano nisso. Porque, apesar de envelhecermos, algumas emoções seguem jovens dentro da gente. Os amores da adolescência, mesmo que curtos, confusos ou platônicos, parecem carregar um brilho especial. Talvez porque sejam os primeiros. Ou porque foram vividos num tempo em que tudo era intenso, exagerado, sem cinismo. E quando esse amor reaparece, mesmo que só em lembrança, ele coloca em xeque a solidez da vida atual. Não porque a vida seja ruim, mas porque esse amor nos lembra de quem fomos — e de quem deixamos de ser.
No fim das contas, acredito que muita gente tem um pouco de Adalberto dentro de si. Uma parte que, vez ou outra, se pergunta “e se?”. Mas diferente dos contos, a vida não precisa de reviravoltas para fazer sentido. Às vezes, basta aceitar que certos sentimentos não precisam ser resolvidos — apenas reconhecidos. Porque há coisas que não terminam. Apenas se transformam em silêncio, em memória, em algumas histórias.
Ficou interessado em ler o meu livro? Ele está disponível na Amazon.






Deixe um comentário